SOS RIO ITAPECURU
MANIFESTO

 

            

O Maranhão chega ao Século XXI tendo pela frente grandes desafios a vencer na área econômica, social, ambiental, cultural, espacial e tecnológica. De todos os desafios, entretanto, um da área ambiental merece urgentemente atenção especial de todos – Dirigentes Públicos, Parlamentares, Magistrados, Empresários Maranhenses, Professores, Alunos, Dirigentes de Movimentos Sociais, Organizações da Sociedade Civil, Conselhos, Igrejas e, principalmente, das pessoas que residem nos 45 municípios que formam a Bacia Hidrográfica do Rio Itapecuru e têm as suas vidas vinculadas diretamente a vida do Rio. A Companhia de Águas e Esgoto do Maranhão – CAEMA, sem estudos consistentes e sem ouvir nenhum dos municípios integrantes da Bacia, nem as Prefeituras, nem as Câmaras Municipais e nem os cidadãos ribeirinhos, em flagrante desrespeito as Leis Ambientais e as Leis Orgânicas Municipais, decidiu que a única forma de viabilizar-se para o futuro é quadruplicar a captação de água do Rio Itapecuru e ofertar o produto, prioritariamente, para uso de indústrias que estão ávidas para se instalarem nas proximidades do Complexo Portuário do Itaqui. Esta ação agravará a situação já precária do Rio, de Rosário até Mirador, e trará conseqüências catastróficas para os municípios da Ilha de São Luís. A Implantação de indústrias poluentes na Ilha, na qual se encontra localizada a cidade de São Luís, patrimônio cultural da humanidade, com capacidade de geração de riquezas permanentes com o uso da dimensão cultural, apresenta-se como uma imensa contradição que a história já provou ser verdadeira. As grandes indústrias que se instalaram em São Luís, todas elas beneficiadas com generosos incentivos pagos pela sociedade brasileira, não tiveram a sensibilidade para destinar parte de seus lucros pelo menos para amenizar os graves impactos negativos que têm causado à Ilha. A miséria e a pobreza aumentaram; os empregos são em número reduzidos pela automação e, geralmente, destinados a candidatos de outros Estados, com maior qualificação; os derramamentos de óleos na Baia de São Marcos são rotineiros e, com isso, sofrem os mangues e seus residentes naturais – caranguejos, peixes, sururus, camarões e, principalmente, as famílias pobres que sempre tiveram nos mariscos a garantia da sobrevivência. A Companhia de Águas e Esgotos do Maranhão – CAEMA já retira do Rio Itapecuru, desde 1983 um volume de água que tem modificado sobremaneira as suas condições geoambientais. Vários estuários e córregos já desapareceram. Há locais, antes navegáveis, que hoje já se atravessa a pé.Os peixes, antes existentes em abundância, atualmente são raros e de pouca diversidade. As marés, pela diminuição da lâmina d´água, cada vez mais avançam rio acima comprometendo, inclusive, a utilização de água para consumo humano. A Companhia de Águas e Esgotos do Maranhão - CAEMA nunca alocou um centavo da receita advinda com a venda da água do Rio Itapecuru para atividades de preservação ou conservação da Bacia Hidrográfica, nem se empenhou para que recursos  conseguidos da Comunidade Européia, a fundo perdido, fossem aplicados pelo menos para impedir os impactos na região onde nasce o rio. A atual diretoria da Companhia de Águas e Esgotos do Maranhão – CAEMA está sendo extremamente competente na função de tentar enganar a todos, talvez instruída por grupos empresariais que desejam o controle da empresa, através do processo de privatização, mas querem receber uma Empresa que possa gerar milhões de dólares anualmente, não fornecendo água para as periferias pobres de São Luís, e sim para grandes conglomerados industriais. Conseguiu enganar o Governo Federal, que recentemente lançou um programa de preservação dos rios brasileiros, fazendo-o alocar no Orçamento Geral da União R$ 300 milhões para uma obra que tem sentido inverso, condenará a morte o principal rio do Estado do Maranhão; conseguiu enganar, com toda eloqüência de quem quer viabilizar uma empresa falida a qualquer custo, a Governadora e alguns de seus Gerentes Gerais, tanto é que a Gerência Adjunta de Meio Ambiente e Recursos Hídricos – GAMA, expediu um documento de licenciamento da obra, a ser executada pela OAS, empresa ligada ao senador baiano Antonio Carlos Magalhães, cuja licitação está sob suspeita e com ação impetrada junto a Justiça, uma semana após este Fórum ter ingressado com uma representação junto a Promotoria do Meio Ambiente, nesta capital; tentou enganar a sociedade maranhense com estudos insuficientes, realizados somente na área de captação, com dados desatualizados e sem envolver nenhum município a partir de Rosário, que são os que mais têm sofrido com a depredação do Rio Itapecuru, convocando  uma audiência pública para véspera do carnaval e sem notificar nenhum Prefeito, nenhum Vereador, nenhum Gerente Regional da Bacia e nenhuma das inúmeras organizações de defesa do rio existentes nas cidades às margens do Itapecuru.

Este manifesto tem o objetivo de alertar as Instituições Públicas dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, ao Ministério Público, às Organizações da Sociedade Civil, as Rádios Comunitárias, às Mulheres, aos Jovens e Adultos dos municípios e, principalmente, aos que tem compromisso com este Estado. É necessário agir agora, pois a OAS  já está instalando os seus canteiros de obra ao longo da Rodovia BR-135.

Se existem R$ 300 milhões disponíveis por que não usá-los para recuperação e conservação dos rios maranhenses, começando pelos rios da própria Ilha de São Luís? Por que não usá-los para um grande programa de Educação Ambiental? Por que não usá-lo para a recomposição das matas ciliares; Por que não usá-lo para a preservação da vida e não a apressar a morte de um rio que já agoniza e agravar a situação de desigualdade vigente no Estado.

O Fórum Maranhense das Organizações da Sociedade Civil, através das Entidades que o criaram e pelas adesões que vem recebendo de outras organizações e Instituições dos municípios envolvidos lutará contra esse crime premeditado e conta, ainda, com a esperança de que as autoridades públicas envolvidas possam ajudar a reverter o atual quadro que é o de executar o projeto a qualquer custo, desrespeitando as leis e os direitos da cidadania.

 

São Luís, 30 de abril de 2001.

 

Fórum Maranhense das Organizações da Sociedade Civil, composto pelas seguintes Entidades:

  1. Associação Brasileira de Águas Subterrâneas – ABAS

  2. Associação de Geólogos do Maranhão – AGEMA

  3. Associação Maranhense para Conservação da Natureza – AMAVIDA

  4. Instituto do Homem

  5. Fundação Joaquim Simões dos Santos – FUNJOSA/ECOBELA